Era caminhar na chuva comendo uvas. Não, ela não estava sozinha, levava consigo uma dureza típica dos nascidos em terras quentes. Sua mãe lhe dera um nome de menina, menina no melhor sentido da palavra, menina moça, frágil, que sonha – como todas as outras – com vestido de pontas e com um desencanto. Gostava de versos simples, comia manga do pé e cuspia os caroços de melancia no quintal, esperava que nascessem cerejeiras em flor. Certa feita acordou com gosto acre na boca, abriu a cortina e lá fora o dia ensolarado chegava a cegar de tão bonito, não importava o quão triste estivesse, o céu teimava em ser azul. O contrário também podia acontecer, se o clima tivesse nublado, era alegria na certa. Nesse dia tomou uma decisão, decidiu que não mais seria a mesma e desenhou um morango na nuca. Quando tava feliz retocava os tons de verde do talo, quando não estava desbotava o vermelho. Ela queria ter os cabelos curtos pra mostrar a todo mundo quem era de verdade: uma menina e um morango. Como lhe faltava coragem, mantinha os fios longos e só mostrava a nuca aos que faziam valer. Assim era ela, não dava pra entender na primeira olhada, mas dava pra gostar mesmo sem entender. Poderia gastar linhas descrevendo essa menina que sempre me aparecia de verde e vermelho. Poderia dizer que ela guardava um segredo, mas todos guardam e se isso não a diferencia de ninguém, então, não tem sentido falar. Poderia dizer que era bonita, teimosa e que morria de amores por qualquer menino de cabelos cacheados, mas aos vinte anos todas somos assim. Poderia falar. Poderia calar. Mas, de verdade, eu só sabia que ela era uma menina que gostava das coisas simples, que contrariava o tempo e que desenhou um morango na nuca.
Só se vê na Bahia!
"Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira." Manoel de Barros
quinta-feira, 1 de março de 2012
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Primeiro, Segundo. Cada número sendo crucificado com “X”. Assassinando-os no calendário. Degolando as folhas em um único golpe toda vez que conto até 30. Ou 31. Ou 28 em casos especiais, 29. Um pêndulo na parede marca o espaço. Meses com “R”, meses sem “R”, meses com “R” outra vez. Dias santos, profanos, civis. Dias. Mais dias. E quando menos se espera...
Já ta na hora de romper de novo.
domingo, 22 de novembro de 2009
Marco: o singular e o plural de uma meta.
E o sentimento do mundo.”
(Carlos Drummond de Andrade- Sentimento do mundo)
Tinha o mundo todo a sua disposição, e queria sempre degustar dele, pedaço por pedaço. Não era nenhum gênio, nunca inventou uma teoria, não descobriu nenhum átomo, molécula, partícula microscópica de cromossomo perdido no meio de uma célula do dedão do pé das tartarugas marinhas do sul do Atlântico (Será que existem tartarugas marinhas no sul do Atlântico?). Não trazia nada de novo que enriquecesse o currículo da humanidade. Seu feito mais significativo no campo das ciências – do qual tanto desejava ser reconhecido – foi publicar um artigo de duas páginas sobre “A trama psicológica das senhorinhas caolhas nos jogos de bilhar”, num periódico anual de uma faculdade do Acre, do qual ele muito se orgulhava e onde ele era imensamente reconhecido.
Era “humano, demasiado humano”, e até então só tinha mostrado a sua porção cristal de neve da ponta do iceberg. Do que era realmente capaz? O mundo desconhecia. Mas, era chegada à hora de mostrar as caras, revelar o clímax do seu “eu” cientifico, assumir a autoria, controlar o guidom da própria vida acadêmica. Foi chamado em algum sonho anunciador, e numa seção mediúnica, o espírito consagrado do grande Saussure psicografou as sentenças “Paradigma X Sintagma”, e ele entendeu que deveria seguir o mestre.
A partir de então sua meta virou: doutrinar pobres almas confusas e perdidas que pairavam entre um certo instituto de letras e um incerto pavilhão três – chamando assim até parece complexo penitenciário. E lá se foi nosso messias. Escrevia, lia, corrigia, aconselhava, emprestava livros, criava referências, idealizava reuniões de departamento, tutorava meninos fazedores de versos, perdia as férias, jogava tarô, búzios e cartas, trazia a pessoa amada em três dias, aceitava cartão de crédito, garantia sucesso financeiro e, nas horas vagas, escrevia teoria.
Seu espírito agora era livre. Foucalt, Derrida, Barthes, fichinhas miúdas, já tinham sido rebaixados de livros de cabeceira, para livros de criado-mudo. Mudo? O mundo já estava pequeno para dividir entre suas peraltagens e seus afazeres, então ele resolveu repartir o tempo, colocando um ponto central. Antes do meio (A.M) e depois do meio (D.M). Só que a procura pelos seus inúmeros dotes era tanta que chegar ao centro era um problema, e a primeira parte do tempo ia se prolongando, se prolongando que findava o dia e ele ainda estava Antes do Meio, e por tal motivo, já era conhecido por todos como A. M. Fazer o quê? Era maior que ele. A vontade de pregar as palavras sagradas era incontrolável, saía quando ele menos esperava, e a garganta já não continha o grito estruturalista.
E nessa vida pós-moderna, nesse inconstante ir e vir de pessoas, palavras, sintagmas, textos, artigos e prosas, ele, A. M. passava os dias, tentando dar conta de tudo. Pior que, para inveja dos outros profetas, ele conseguia fazer bem todo o seu trabalho, além do extra e além de arrebanhar ovelhinhas admiradas para o grande seio da mãe lingüística.
Um dia não agüentei mais de tamanha curiosidade, até porque, além de mim, o mundo todo queria saber como é que ele conseguia assobiar e chupar cana, e perguntei: “Qual a fórmula para tamanha multipersonalidade, multiutilidade, multiversatilidade?” Ele não queria responder, pensou uma, duas, três mil setecentos e trinta e nove vezes, e resolveu falar, já que entregar o seu segredo não ia comprometer tanto o seu trabalho – acho que foi o argumento que usei, dizendo que: “o fazer cientifico só vale a pena quando é compartilhado”, ele não teve como resistir a essa.- e revelou: “ Na verdade tudo que eu sei nessa vida é costurar, e por tal, vou remendando um retalho no outro até surgir uma teoria nova. Devo isso aos meus primeiros passos, a minha primeira pesquisa, a faculdade do Acre, e as velhinhas caolhas jogadoras de bilhar com suas infindas tramas psicológicas”.
Dei-me por satisfeita. Entendi que não o aprenderia com palavras e sim com olhar, e fui começando a traçar uma meta pra mim, um querer ser assim, que ultrapasse a lógica matemática, um prazer instantâneo em cada retorno de céu que caiba a mim explicar o tom do azul, uma satisfação imensa da certeza de que apesar de tudo de não bom que pode vir com as escolhas, ocupo o lugar certo, e isso tudo sem deixar transbordar do copo todo o possível singular e plural que podem caber num Marco.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Entre o Mar e a Céu
No princípio de tudo, as coisas todas do mundo eram unidas num bolo só. E entre as amizades mais verdadeiras e mais confidentes estavam o Mar e a Céu, que só andavam juntos, só nadavam juntos, só voavam juntos, só aprontavam juntos, desde os tempos de mulequice,desde a época em que eram poucas gotas e poucas nuvens. Mas eles foram crescendo, tomando dimensões antes não mensuráveis, ganharam o direito do infinito – que até então era para poucos – e de tão juntos, chegavam a parecerem espelhos, e os olhos despidos de qualquer mortal podiam jurar que eram um só, já que em algum momento se uniam de tal forma...que nem saberia relatar.
Mas, enfim, o que me trás a essas não prolongadas linhas, foi o fatídico dia em que Seu Mar e Dona Céu resolveram farrear, resolveram sair de seus cômodos lugares de mansidão e darem uma volta pela noite fria do universo. Beberam demais, dançaram demais, perderam a hora e despertaram a fúria de Deus – é bem verdade que Deus não fica lá furioso, mas na falta de melhor palavra que definisse o sentimento Dele naquele momento, e até para dar uma conotação mais dramática e impactante a essa história, o narrador optou por fúria mesmo. Amanheceu, dia nublado, águas revoltas, há quem pensasse em fim do mundo, mas era ressaca mesmo. Deus chamou os réus e de maneira precisa e irrevogável deu o seu parecer: “Falta a vocês dois humanidade, falta sentir na pele- literalmente- as mazelas e os perigos dos dias e dos erros, falta o sofrimento da eternidade retraída. Por tal motivo puno-lhes retirando uma fatia de tamanha imensidão e dando-lhes roupas de homem.”
Vinte e cinco por cento do mar do mundo, agora, se concentram nele, enquanto os vinte e cinco por cento do céu se concentram nela – empreitada ainda mais difícil já que é mulher e suporta o infinito em apenas um metro e meio e uns quarenta e cinco quilos. Mas essa foi à tarefa, diria com todo respeito, menos bem sucedida do nosso Senhor, eles se encontraram na Terra, eles se reconheceram em silêncio e o que era pra ser castigo, virou uma possibilidade diferente de se amar. E eles se amaram. E eles se amam. E continuam – agora com uma freqüência ainda maior- perdendo as noites e rebulindo o universo.
E como eu sei disso?
Esse narrador que vos fala teve a possibilidade de se deitar entre eles, numa dessas tão proveitosas festas que fazem a noite passar tão rápida como uma menina que corre ao encontro do braço, abraço, de um pai.
E acredite, é bem verdade, no alvorecer do outro dia parecia o fim do mundo. Mas era ressaca mesmo.
domingo, 4 de outubro de 2009
Eu?
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante"
(Elisa Lucinda-O poema do semelhante)

Eu?
Eu, também carrego água na peneira.
Apetece-me brincar de palavrear e querer bem.
Tenho muitos amigos
Eles querem meu colo,
meu choro
minhas não palavras.
As vezes devagarzinho
As vezes quase parando.
Sou mais intuitiva que concreta
Não sou de concreto,
Cimento
Tijolo
Brita
Nada disso me compete.
A não ser na raiva
Quando mais em menina me transformo.
Preciso de gente.
Já desisti da auto-suficiência faz tempo,
E essa foi à roupa de mulher que melhor me coube.
Perco horas de estudo lendo poesia.
Assisto finais de novela.
Inícios e meios.
Nasci beirando os anos noventa,
Mas meu coração...Ah!
Esse não se acostuma com a pós-modernidade.
Ficar,
comer,
sumir
não aprendi certas conjugações.
Mas o que eu não sei
invento, re-invento.
O que tenho de bom
não é meu,não se engane!
Roubei de uma senhorinha bordadeira de sonhos
que cerziu com dedal
agulha
e linha
todos os caminhos por onde meu sangue iria passar.
Eu?
Ora de sapatilha no pé
Ora de colar no pescoço
Unhas meio vermelhas
Meio sem cor
Vou tecendo o fuxico
De quem não muito pretende ser
À quem já apetece
Ser o que é.
Eu?
domingo, 27 de setembro de 2009

sábado, 26 de setembro de 2009

Onde deveriam entrar todos os bons sentimentos, transbordam o excesso de mim que não cabe mais no peito. E, assim, vai tecendo um buraco suficientemente grande para minha ausência de querer. Ausência que corrói meus nervos, faz doer meus músculos, fermentados de tanto lutar para não ficarem parados, dói a cabeça que é o pré, inter, entre, pós texto pra prolongar o sono, dói os olhos, a nuca, o cabelo e o sexo, dói porque lhe falta algo mais prazeroso com que brincar além da dor.
Assassinaram meus fonemas para que até minha garganta ficasse sem ter com o que brincar, e calasse o grito que quer cada vez mais alto e é cada vez mais mudo.
E nesse excesso de verso e carência de prosa, a carta que encerra o jogo é tão desconhecida quanto a palavra que declara o fim.